Se há um povo cujo destino histórico foi determinado pela
natureza dos lugares em que sua vida surgiu e desabrochou, este é, por certo, o
povo romano.
Sua literatura, reflexo do movimento histórico, foi
acompanhando, passo a passo, todo um desenrolar contínuo de fatos que marcaram
época na vida política e literária de Roma e no próprio destino do mundo.
A época que viu surgir os maiores escritores da idade
republicana – ou talvez mesmo de toda a literatura latina – foi uma das mais
trágicas da histórica. O período revolucionário que se inicia com os Gracos fez
florescer a cultura romana, contudo foi um período tumultuoso e sangrento, que
levou à ruína final o regime republicano.
Entre as agitações e os ódios dos cidadãos surgiam
sempre novos perigos para Roma. Na consciência dos vencedores já se havia feito
a persuasão de que a República, esse glorioso monumento alçado nos séculos
pelos conquistadores do mundo, estava prestes a desmoronar.
A loucura do poder e das riquezas, o individualismo
desenfreado, a angústia do perigo na ebriedade do poder, a cultura cada vez
mais refinada e todo um fermentar de paixões violentas em espíritos poderosos
formam o fundo dramático em que floresceram homens de gênio e obras geniais.
Porém, a revolução devora seus próprios filhos, como
Saturno. Ao contrário da velhice serena da maior parte dos escritores do
período anterior, a maioria dos talentos desse tempo morre dramaticamente ou em
idade prematura. Mas em sua breve vida, deixam uma luz e uma imagem de si, que
as idades vindouras nunca poderão olvidar.
Foi nessa época de ferozes depredações – nesse mundo
sanguinário – que nasceu, viveu e morreu MarcusTullio Cicero.
Plutarco, o ingênuo eco das crenças populares, fala
de um gênio que teria aparecido à ama de Cícero e lhe havia dito que aquela
criança seria, um dia, “a glória de Roma”.
Ele tinha razão. Cícero não é apenas o orador hábil,
um advogado da tribuna, mas, sobretudo um grande artista que contribuiu para a
depuração da arte da sua época.
Era um “homo
novum”, nascido de uma família modesta, de costumes antigos, em um desses
pequenos municípios – Arpino – que conservava a doçura e a simplicidade da vida
nos campos.
Em meio ao luxo, à glória, às rivalidades e à
ambição, Cícero nunca esqueceria sua sã educação e uma humanidade simples que
deixa tão agradável perfume na intimidade de suas cartas. Não há outro em quem
o homem “íntimo” explique melhor o homem político e o artista como Cícero.
Este homem combateu a vida que se contrastava entre a
realidade e o seu ideal. Quando o buscamos em sua obra, vemos revelada a alma
generosa, franca, sanguínea que odeia as máscaras que ocultam os rostos.
Nasceu em 3 de janeiro do ano 166 a.C. e os seus
primeiros anos transcorreram na época sangrenta das guerras entre Mário e Sila
– conflitos e batalhas campais nas tribunas do fórum.
Teve educação vasta e profunda. As relações de sua
família com os mais ilustres personagens da República lhe proporcionaram o
contato e a amizade de ilustres cônsules e oradores famosos.
Sua extensa coleção de discursos constitui uma mina
inesgotável de ciência jurídica e uma fonte de primeira ordem para o estudo do ambiente
político e social da época – um momento cultural de importância única.
A natureza o havia dotado prodigamente para o ofício
de orador. À uma presença imponente, juntava-se uma voz expressiva, fisionomia
vivaz, dicção convincente. Além dessas propriedades externas, possuía brilhante
memória, o dom da improvisação, enfim, um grande talento.
A linguagem de Cícero não é apenas a língua mais pura
de Roma, mas tem sido, por séculos e séculos, a língua mais lúcida da cultura.
Por outro lado, este orador, se não é um gênio da
política, de planos arrojados, de vontade inflexível, é um homem profundamente
sensível. Comove porque se comove. Anima seu discurso como a uma criatura viva,
porque o vive e nos faz vivê-lo.
Assim foi Cícero, glória de Roma e da
literatura latina.
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