SAUDOSISMO

Quando um homem pisa no pé de um estranho no mercado, desculpa-se amavelmente e dá uma explicação: essa praça está tão apinhada de gente!” 
(Chuang Tzu, mestre que escreveu na Ásia há quase 2500 anos atrás).
    
Chegou mais um Ano Novo e com ele esperanças renovadas, novos projetos e propósitos de uma vida mais saudável, mais honesta, mais bonita.
Mas surge melancolicamente o calor da saudade de anos outrora bem vividos; acende a chama intensa e colorida da infância, da juventude.
Naquele tempo, os filhos chamavam pais e professores de senhor e senhora e pediam a benção aos avós.
Não me refiro aos pronomes de tratamento, mas à atitude de respeito aos mais velhos, aos entes queridos.
Pais, professores, enfim, o ser humano, todos nós carecemos de carinho e atenção. Um relacionamento só sobrevive na base do respeito e do amor, qualquer que seja.
Ouço muita gente se queixar da grosseria do comportamento dos alunos, professores, atendentes de lojas, de repartições públicas. Esses valorosos rapazes e moças, que lutam pela sobrevivência, com certeza, não foram suficientemente preparados para tal ofício.
Não conhecem aquelas cinco expressões mágicas que favorecem um relacionamento. Há alguns anos, a professora Glorinha Rebello já insistia com seus alunos em aulas de Inglês no Colégio Estadual. Vejam as palavrinhas mágicas, tão fáceis de dizer:
1) “Bom dia!”; é bom ouvir uma saudação. Bom dia ao carteiro, ao leiteiro, aos colegas, a todos.
2) “Obrigado!”; agradecimento pela delicadeza dos outros, pela vida, por viver em um país onde, pelo menos, não há guerras e em um mundo onde há tanta coisa bonita e tanta gente que se esforça para torná-lo melhor.
3) “Pois não"; em resposta, sempre que se espera de você alguma coisa.
4) "Perdão"; Jesus nos disse que perdoássemos até 70 vezes 7, isto é, sempre. O perdão enobrece, dignifica, purifica.
5) "Às ordens, em que posso ajudá-lo"?
São palavrinhas que, se pronunciadas com amor, são capazes de transformar o ambiente em que vivemos.
“Calma e elegância”, pregava a saudosa diretora do Grupo Escolar Dom Otávio, professora Clarice Toledo. Muitos alunos cresceram ouvindo esse conselho.
Não é necessário viver no meio acadêmico, ou conviver com pessoas cultas, para cultivar esses princípios de bom relacionamento.
Se você visitar uma casa no meio rural, ficará boquiaberto com a gentileza das pessoas. "Aceita um café? Uma água? Ninguém sai de minha casa sem experimentar esse delicioso suco de maracujá". E assim por diante.
Não só do comportamento gentil a gente sente saudade.
Saudades das histórias de fadas que nossos pais, avós e professores contavam.
Sem o passaporte mágico dessas narrativas, é difícil conceber viagens, aventuras, criar mundos fantásticos, sonhar, ousar. Castelos, montanhas, gigantes, anões, cinderelas, bruxas, príncipes, fadas, moinhos de vento, todas essas coisas que povoavam a imaginação das crianças nos tempos de outrora!
Monstros orientais, ninjas e vampiros inundam hoje a cabeça dos baixinhos que, mesmo assim, ainda gostam da Xuxa, da Angélica ou da Eliana.
Saudade do telefone que servia para um breve recado ou um bate papo amigável.
Abaixo o telefone digital!
Disque (1) para saldos; (2) para cartões de crédito; (3) reclamações ou sugestões; (4) para financiamento de computador e (5) para voltar ao menu inicial.
Não há coisa mais irritante que querer apenas uma informação e ser obrigado a ouvir esse rosário de chatices.
Saudades das cartas de amor escritas em papel perfumado, pétalas secas em um livro qualquer.
Caretice? Bem, acho original o vocabulário dos amantes da informática: deletar, clicar, e-mail, link, msn, orkut, chat, vídeopapo.
O desconhecido nos intimida e assusta! E o computador me é desconhecido!
O sinal linguístico não une uma coisa e um nome, mas um conceito e uma linguagem acústica”.
Têm razão os internautas ao abreviar, beijo (bj), você (vc), tudo (td), também (tb).
Usa-se um código inteligente e abreviado, como abreviado são nossos pensamentos, à mercê de plurinformações globais consecutivas.
Tudo mais ou menos, sem se aprofundar, pela rama.
Deixo de lado o saudosismo. O que passou, passou?
Deixar de caretice e procurar urgentemente um professor que me ajude a desvendar esse misterioso mundo digital.
Mas de uma coisa tenho certeza: meus e-mails serão textos menos informativos e mais literários. Podem até ser de humor; Millôr, Ziraldo, Henfil, Vinícius, Chico Buarque, Olavo Bilac e talvez sonetos líricos de Camões...
          Quem quiser, delete.

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